Crianças não podem esperar

Fonte: Jornal Estado de Minas, data 28 de junho de 2017 – OPINIÃO

draMarciaDrRicardocrianca

A psicóloga educacional americana Helen Irlen trabalhava para o Departamento de Educação do governo da Califórnia, estudando um grupo de alunos com dificuldades de aprendizagem e de leitura, e ficou curiosa com o relato de membros do grupo. Eles percebiam as letras se moverem durante a leitura, e conseguiam minimizar esses efeitos, melhorando a leitura, ao colocar uma transparência sobre a página escrita. A maioria deles relatava grande desconforto com a luz, desconforto com movimento (andando de carro por exemplo), dores de cabeça intensas e constantes e, via de regra, tinham baixo rendimento escolar. A ciência médica se interessou pela descrição da psicóloga e explicou tratar-se de um problema de visão relacionado à capacidade de se adaptar a diferentes níveis de iluminação. Mais ainda, a ciência explicaria tratar-se de um distúrbio do sistema magnocelular, um dos componentes do sistema visual. Os médicos acrescentaram, também, que esse distúrbio magnocelular incluía um grande número de manifestações clínicas, além daquelas descritas dentro do contexto da educação. A definição de Síndrome de Irlen (SI), dentro do contexto da educação, estimulou a comunicação entre pais, professores e os muitos profissionais de apoio (tais como psicólogos, pedagogos, médicos e terapeutas) e foi adotada em todo o mundo para descrever um grupo de pessoas com dificuldade de adaptação à luz e processamento da visão de movimento, o que impacta na aprendizagem da leitura e, consequentemente, na aprendizagem e desempenho na escola. As pesquisas e publicações em todo o mundo mostraram se tratar de um problema mundial prevalente em cerca de 5% a 20% da população. Uma tese de mestrado na UFMG encontrou um percentual de 17% na escola pública de BH. A tecnologia permitiu o desenvolvimento de transparências (chamadas de overlays) com melhor qualidade em diversas tonalidades e de baixíssimo custo. Se largamente usadas na escola pública (sendo mais baratas que um caderno), serão eficientes a ponto de salvar a vida escolar de um aluno que, nos casos mais severos de Síndrome de Irlen, estaria condenado ao analfabetismo. Foram desenvolvidas, ainda, lentes com filtros específicos, feitos de forma customizada, portanto mais caros e convenientes, que podem ser utilizadas de forma mais ampla, em todas as atividades da vida diária. Ao grupo de pacientes portadores destas deficiências que procuram o oftalmologista em primeiro lugar, portadores de Irlen ou condições similares, devemos acrescentar uma segunda parcela, daqueles que foram vítimas de traumatismo craniano e que apresentam quadro de sintomas semelhante: distúrbios visuais, fotofobia, cefaleia, enxaqueca, náusea, grande dificuldade de leitura. A importância dada ao tema em todo o mundo se justifica em função do crescente número de vítimas de trauma no esporte, especialmente no futebol americano. Outro segmento importante são soldados vítimas de explosivos que, mesmo a distância, produzem ondas de choque que levam ao trauma craniano. Curiosamente, o quadro clínico produzido é semelhante à Síndrome de Irlen, tanto no diagnóstico quanto no tratamento, especialmente no caso da fotofobia, a queixa mais importante e de mais difícil tratamento em oftalmologia. No Brasil, a maior causa de trauma são os acidentes de trânsito e esporte. O cuidado desses pacientes envolve uma atenção multi e interdisciplinar entre médicos de diferentes especialidades (como oftalmologia, neurologia e pediatria) e profissionais de saúde, tais como psicólogos, pedagogos, fisioterapeutas e fonoaudiólogos. Infelizmente, até hoje, o reconhecimento da Síndrome de Irlen no Brasil tem sido retardado por um debate estéril que tenta questionar sua existência e a validade do tratamento proposto. Novos conhecimentos são geralmente promovidos por laboratórios que patrocinam pesquisa se congressos com o ganho na fabricação e venda do tratamento proposto. Falta esta oportunidade nos casos de Irlen onde o tratamento com overlays é muito barato e não gera patentes. Em um Brasil que é retardatário na luta contra o analfabetismo, a contribuição dos profissionais de saúde e educação é, com certeza, decisiva, especialmente nos 17% de portadores da condição identificados na escola pública e nos portadores de traumatismo craniano. Esse será o tema do 5º Congresso Brasileiro de Neurovisão, a se realizar nos dias 21 e 22 de setembro de 2017, no Campus da UFMG.

Anúncios