Enzo e a silenciosa história da Irlen

foto enzoEnzo nasceu prematuro de 31 semanas, mas um bebê saudável. Sempre foi uma criança esperta e sociável. Comecei a perceber que tinha alguma coisa errada com o Enzo quando ele começou a frequentar a escola. Percebi que ele tinha muita dificuldade em realizar tarefas quanto a escrita que eram impostas para ele, mesmo sendo tarefas bem iniciais da alfabetização. Não conseguia escrever as vogais, não tinha o sentido da lateralidade, desconhecia o próprio corpo (não sabia nomear os membros inferiores e superiores). Assim a escola me chamou e a professora apresentou as dificuldades que estava encontrando em relação ao processo de alfabetização.

Desta forma procurei uma psicopedagoga para fazer uma avaliação, ele estava com 5 anos. Fui muito criticada até pela família pois entendiam que ele era muito pequeno para saber escrever. Tentei explicar que mesmo nesta idade a criança precisa apresentar alguns comportamentos de acordo com o seu desenvolvimento cognitivo para a idade.

A psicopedagoga avaliou e chegou ao um resultado onde meu filho apresentava um quadro de dislexia acompanhado da disgrafia. Fui até a escola com a psicopedagoga e minha sogra para uma reunião com a coordenação da educação infantil, sua professora e a diretora. Na devolutiva que foi feita, a escola se comprometeu em fazer um acompanhamento mediado em sala de aula durante as tarefas, pois a escola não dispunha de um profissional para ficar o tempo todo.

Fiquei satisfeita com a reação da escola e comecei a fazer minha parte em casa. Ele começou um acompanhamento com a psicopedagoga para estimular o desenvolvimento do processo de alfabetização. Esse era o mês de maio e em junho a escola me comunicou que a professora do Enzo seria trocada pois ela estava sendo demitida, questionei sobre o motivo, mas não quiseram expor, apenas disseram que outra professora assumiria mas que era para eu ficar tranquila que o processo de mediação iria continuar.

Em julho ele entrou em férias e no começo de agosto resolvi ir buscar meu filho no final da aula para conversar com a nova professora. Chegando à escola para pegar o Enzo, perguntei para professora como ele estava e ela respondeu que ele estava bem e  perguntou Porque?

Indaguei: como está a tutora na mediação na sala de aula?

A resposta dela foi: Mediação? Que mediação? Não estou sabendo de nada.

Falei: você não foi avisada que o Enzo tem dislexia e que precisa de alguém acompanhando ele em sala de aula?

A professora respondeu: não, não fui informada.

Desta forma percebi o descaso que a escola estava tendo com o meu filho. Naquele mesmo dia soube pela alfabetizadora dele que ele havia comentado que a professora tinha dito que ele era devagar. Resolvi naquele dia tirar ele daquela escola. Comentei a situação com uma amiga pedagoga dona de uma escola de ensino infantil e ela disse que acolheria o Enzo. Naquela mesma semana pedi a transferência do Enzo daquela escola, praticamente fizeram uma “festa de despedida”.

O Enzo ficou na escola desta minha amiga até o jardim 5, mas ela me falou que apesar dos esforços, que ele havia evoluído, não teria condições de ser promovido para o 1º ano mas que ela não poderia reter pois a orientação do Núcleo de Educação era promover. O projeto político pedagógico da escola não previa retenção no jardim 5. Nesta época já sofria pressão e críticas por parte da família e escola. “Adjetivos” como: preguiçoso, devagar, desatencioso, arteiro entre outros era comum. Eu era a mãe relapsa que não sabia ensinar para o filho e não tinha paciência e ainda estava “procurando coisa aonde não existia”.

No 1º ano o diagnóstico de dislexia começou a ser questionado e a situação tratada como uma falta de limite dele (fazia quando queria). A professora dele, que era muito boa e tinha muita paciência com ele, me falou que ele teria muita dificuldade no 1º ano. Tentei retê-lo, mas não consegui. Já no 2º ano o Enzo não conseguia ler e escrevia com muita dificuldade. Fui conversar com a professora e ela disse que ele não tinha dislexia e questionou o laudo da psicopedagoga e deixou bem claro que não ia fazer nada para tratar a situação dele diferente, pois segundo a professora ela não poderia dar tratamento diferente para o Enzo e nem validar o conhecimento dele por “baixo” pois afinal o processo de alfabetização ainda não estava concluído e que era normal o comportamento já que ele estava em processo de alfabetização. Percebi que não adiantava eu falar mais.

Neste momento já estava estudando a Síndrome de Irlen, pois sou psicóloga e avaliei uma situação como a dele. Marquei uma avaliação neuropsicológica. Neste interim entrei em contato com a Fundação Hospital de Olhos Dr. Ricardo Guimarães em Belo Horizonte e agendei a avaliação para o Enzo. Quando a neuropsicóloga concluiu a avaliação falou para mim e meu marido que ela não conseguiu fechar um psicodiagnóstico pois ele tinha traços de vários transtornos de aprendizagem mas ela não conseguia concluir nenhum.

Comentei que estava estudando a Síndrome de Irlen e que entendia que o Enzo apresentava quadro de sintomas compatível para este diagnóstico. A neuropsicologa orientou a investigar a SI diante do que foi levantado.

Dia 24 de agosto de 2017 estava em Belo Horizonte iniciando a avaliação do Enzo e no dia 25 recebi o diagnóstico da Drª Marcia.

Meu filho tinha um quadro severo de SI, de 11 distorções viso perceptuais o Enzo tem 9, além da fotofobia, restrições na integração neurovisual periférica, comprometimento na estereopsia, processamento visual em baixas frequências espaciais comprometimento da visão e alterações na ocolomotricidade em condições de leitura. A cada explicação da Drª Marcia eu chorava e um filme passava na minha cabeça fazendo relembrar de tudo que escutei e vivi junto com o meu filho.

Meu filho está usando um overlay (filtro) azul para auxiliar na leitura e estamos aguardando o óculos chegar. Travei uma luta de 4 anos sozinha tentando provar que meu filho precisava ser acolhido de maneira diferenciada, agradeço primeiro a Deus por ter me dado sabedoria e discernimento, segundo ao meu instinto materno e terceiro ao feeling profissional que me fez persisti em continuar a lutar por um direito que lhe cabe.

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