Lelia – a luta de Estela até a descoberta da Síndrome de Irlen

Leila filhosEstela sempre foi uma criança doce, tranquila e tímida. Andou antes de um ano, desfraldou cedo, falava muito e corretamente. Foi para escola aos dois anos para vencer a timidez.

Filha de pais divorciados, sem presença paterna e com um irmão com paralisia cerebral severa totalmente dependente, nunca sobrou muito tempo para ela que desde cedo aprendeu a se virar fisicamente e emocionalmente.

Ao chegar os primeiros boletins na educação infantil observei a dificuldade motora e pedido de estímulo. Mãe especial, logo pensei, gente filho normal também é preciso estimular, não vão sozinhos? Então comecei, muito embora era ótima no linguajar, não gostava de nada que fosse educativo nem vídeos, nem livros, jogo de memória ou quebra cabeças.

Com 5 anos mandaram ao oftalmologista e nada foi detectado, aos 6 sua sala leu e ela não, deprimiu, baixa estima, oftalmologista de novo e nada achou. Foi para escola pública, dificuldade de concentração, horror à leitura, péssima em matemática, falta de lógica, dores de cabeça, tonteiras e uma dor na barriga que nada cortava. Apelidei de Maria das Dores, pois era frequente buscar na escola.

Escola, família e amigos mandando eu sossegar o coração pois era o jeito dela, mas nunca me conformei, dizendo que eu estava ‘procurando chifre em cabeça de cavalo’. Eis que nossa relação na hora das tarefas de casa, que só fazia acompanhada comigo, chegaram ao extremo e fomos para psicóloga. Essa mesmo antes de conhecer Estela só comigo, falou da síndrome de Irlen, achei a cara do pai dela. Então fomos ao neurologista, que descartou, chegou a rir, e cogitou dislexia.

Leila EstelaTestes de QI e dislexia, em 30 minutos a psicopedagoga descartou dislexia, e me avisou que iria usar dinâmicas diferentes do que o neuro passou pois alguma coisa não encaixava, falei da SI, e ela me encaminhou para uma screener. Tudo em passos lentos, pois sou sozinha, autônoma, com filho altamente dependente e cheios de terapias e procedimentos, e tudo até a capital demanda quase 5h de carro.

A screener veio ao meu encontro horrorizada com a gravidade da SI, Estela mal parava em pé de tonteira e enjoo, não acreditava que Estela lia, escrevia com boa letra, nunca havia tirado nota abaixo da média e era tão grave. Chorei bastante, mesmo parecendo incoerente, ter um filho PC tão severo e chorar por uma filha com SI. Mas chorei de dó, da falta de informação do longo percurso, ela então com 9 anos. Levamos overlay, folhas roxas e muitas informações para a escola, que foi muito difícil acreditar, acharam fantasioso e invenção. Estela é muito doce, generosa, boas notas então os professores só a defendem. Mas eu sabia suas dificuldades cotidianas e escolares, não desisti.

Um dia busquei Estela desmaiada na escola, vários exames, consultas e eis que chegam as provas da escola, em papel branco e letras minúsculas!!! Chorei muito. Poxa comprei os papéis, diálogo intenso, laudos, orientações e Estela toda roxa com dois tombos e um desmaio na semana da prova, pois a escola particular simplesmente não adaptaram!! Pediram desculpas. Estela hoje é outra criança, boa estima, boas notas, seu primeiro 10 na folha roxa, neuromodulando o cérebro com fono e pedagoga, após os óculos confeccionados. Processamento auditivo melhora incrível. Não precisei forçar o uso dos óculos, sabe a necessidade para ela. Na festa passa sua sombra destacante e vai sem, mas logo coloca.

Para viajar era muitos remédios, hoje nenhum. Costumo falar que passo por tudo mil vezes para vê-la bem, principalmente sem as dores e enjoos.

Irlen existe sim e tem tratamentos para melhora de qualidade de vida, espero que um dia fiquem disponíveis a todos sem distinção de condição financeira.

Lelia Tavares

 

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