Paula – a minha força de vencer é maior que os obstáculos do que tive que enfrentar

O meu nome é Paula Alves, tenho 22 anos, faço psicologia, sou de São João Del Rei – Minas Gerais e tenho diagnóstico de síndrome de irlen e TDAH.

Paula AlvesQuando fui diagnosticada aos 9 anos com TDAH fui submetida ao medicamento Ritalina, porém eu ficava quieta mas ainda sim não conseguia me concentrar direito. Ao longo da minha vida acadêmica, eu fui submetida a diversos apelidos, como burra, malandra, entre outros. Mas as pessoas infelizmente não compreendiam que eu não aprendia, então era fácil me julgar como malandra, afinal estava tomando o remédio no qual deveria me ajudar a concentrar nas aulas.

Aos meus 16 anos uma grande terapeuta apresentou aos meus pais a Síndrome de Irlen e sugeriu então que eles procurassem a respeito, porque eu me encaixaria em todos os critérios.

Conheci em janeiro de 2012 a fonoaudióloga e também screener Juliana, fizemos os testes e então ela notou que eu realmente tinha a Síndrome de Irlen. Comecei a usar os overlays que me ajudou bastante e em 2013 fui à Fundação Hospital de Olhos Dr. Ricardo Guimarães, conheci a Doutora Márcia e sua equipe.

A equipe da Dra. Márcia ficou impressionada comigo, pois eu sempre fui boa em esportes e eles ficaram bastante surpresos com isso, porque pessoas como eu não se dão muito bem com a bola mas foi a primeira vez que eu senti que era especial, que eu não era tudo de ruim que as pessoas falavam, e  então comecei a usar os óculos, e foi sucesso atrás de sucesso, eu consegui entrar na faculdade de psicologia, revisitei as igrejas de São João agora enxergando como alguém normal e reli os livros do Harry Potter, mas como toda síndrome essa não seria diferente, eu comparo as fases que eu tive com a doença com as 5 fases do luto.

A  primeira fase é a negação/choque: Porque negação?

Porque é difícil aceitar que você não é como uma pessoa normal. É difícil aceitar viver dependente de algo. Para as pessoas de fora isso não significa nada, mas para quem está vivendo com a síndrome é algo desconfortante, é algo que dói.

Segunda fase é de Raiva: Porque eu tenho isso e a outra pessoa não?

Colocamos a culpa em todos, deslocamos a raiva nas pessoas mais perto de nós. (amigos, familiares, médicos). A raiva pode até chegar a Deus, ao destino ou ao universo, como se ficasse mais fácil culpar alguém por isso.

Terceira fase é de Negociação: Porque a negociação?

Podemos dizer que a negociação anda de mão dada com a negação, seria uma simples tentativa de fazer a vida voltar ao que era antes. Antes do diagnóstico.

Quarta fase é de Depressão: Porque a Depressão?

Depois de tantos fracassos na vida, paramos para pensar no quanto estamos cansados e desconectados com as pessoas. Ficamos mais silenciosos, quietos, no nosso canto, onde sentimos um conforto surreal.

Quinto e último passo é a ACEITAÇÃO: Porque a Aceitação?

Depois de viver momentos extremamente difíceis, finalmente conseguimos levantar a cabeça e aceitar com serenidade que temos algo.  Algumas pessoas tem esses momentos, como uma felicidade sem fim, um alivio, uma sensação de paz. Quando estava passando por essa transição de aceitação, revivi as minhas piores batalhas, ninguém disse que era fácil ser diferente, e as pessoas não estão pronta para o diferente, porque o diferente incomoda, é como aquela pelinha no canto do dedo, incomoda e você fica tentando tirar ela. É difícil aceitar que não somos normais, mas afinal quem é normal nessa vida? Costumo a dizer para meus amigos que a síndrome de irlen não é uma maldição, não é algo ruim. A síndrome de irlen é a minha melhor amiga, foi como decidi chamar ela, porque foi a forma como eu a aceitei, não adiantaria negar o que eu tenho, fugir do mundo e fingir que eu sou normal. Eu não sou normal, eu sou uma pessoa portadora da S.I, e eu me sinto especial com ela.

Depois de todas as pessoas dizerem que eu não conseguiria, eu sai do ensino fundamental 1 e 2 do ensino médio sem saber oque eu tinha, é uma grande vitória, e essas vitorias deveriam ser ditas.

No ano passado (2016) eu fiquei em recuperação por causa de meio ponto, eu fiquei bastante chateada e eu entrei com um recurso para que a faculdade me desse prova oral, foi a primeira vez que a faculdade fez algo realmente para me ajudar e eu fiz a prova, em  uma sala sozinha, com a luz ambiente e a professora lendo a prova pra mim, ficamos 1 hora e meia fazendo a prova, e eu consegui tirar 88,40. Logo após isso a faculdade me notou, realmente viu que eu tenho uma necessidade especial, que eu não uso óculos escuro a toa.

Como eu mesmo digo quando perguntam: você sempre quis fazer psicologia?

Eu digo:  não, eu nunca quis fazer psicologia, mas depois que eu descobri que existem pessoas iguais a mim, que sofrem nas mãos de educadores que tem medo de lidar com o diferente, a psicologia me escolheu.

A menina que  eles disseram que nunca seria alguém na vida, a menina burra que não sabia ler, hoje está no 8º período de psicologia e espera ajudar as crianças a superar os  desafios.

Ninguém disse que era fácil ter a síndrome, mas também nunca disseram que seria impossível.

 

Anúncios