Rafael – a longa jornada até a descoberta da síndrome de irlen

Meu nome é Rafael Silva e vim contar um pouco da minha história de vida e a longa jornada para descobrir que possuía Síndrome de Irlen.

Rafael Silva

Nunca fui de ler livros, revistas e apresentava dificuldade na compreensão de textos. Achava que tais obstáculos seriam normais e pensava que fosse preguiça ou algo do tipo pois bastava ler qualquer texto que a sonolência já vinha, me perdendo na leitura até chegar ao ponto de dormir em cima do livro ou revista. Disciplinas como português, história e geografia me atormentavam,  tentava me ajustar através de uma leitura pausada e repetitiva para decorar os textos.

Sem saber que algo me atrapalhava, tentava me superar e fazer o melhor.

Rafael e seus irmaos Manos 20151129_193952Meus pais e irmãos me ajudavam estudando comigo, fosse na leitura ou resolução de exercícios. Gostava de prestar atenção nas aulas, pois, ouvindo absorvia bem o conteúdo, mas sempre sentia um frio na barriga na hora das provas e acho que era um nervoso vindo da cobrança a qual era inconscientemente submetido.

Com ou sem as dificuldades, fiz muitas boas amizades e agradeço a Deus por tudo que passei. Meus pais me educaram para ser sincero, verdadeiro, solidário e não tem o que pague tais ensinamentos. Mas não vou mentir, na época do vestibular foi aonde mais senti algo me atrapalhar. Muitas matérias para estudar, cobranças, vários livros pra ler e apesar de todo esforço o resultado não era o esperado. Queria fazer engenharia e não conseguia sair bem nas provas. Ao meu ver, ainda era falta de estudo. Contudo, me esforçando bastante passei no vestibular do CEFET-GO (hoje IFG) para o curso de Redes de Telecomunicações.

A faculdade foi uma época bem tensa, sentia muito sono, incômodos com a luminosidade fluorescente, rendia pouco nas matérias mesmo me esforçando bastante e tentava a qualquer custo continuar fazendo meu melhor. Ainda acreditava que eram dificuldades normais e eu teria que superá-las. Consegui formar e posteriormente passar em um concurso de nível médio na área de informática no ano de 2007.

Em 2011 comecei a estudar para outros concursos buscando uma remuneração melhor. Mas a absorção das matérias estava muito baixa e isso me incomodava, além de que meu organismo começou a ficar mais sensível ao ambiente de trabalho como por exemplo lâmpadas fluorescentes, horas na frente do computador, ruídos e até causando cansaço e irritabilidade. Ao chegar em casa, não conseguia estudar e achava que era preguiça, mas eu mal sabia que todos esses fatores me atrapalhavam e fui tentar buscar respostas marcando consultas em oftalmologistas.

Na primeira clínica fiz todos os exames de rotina e o médico falou que minha visão era normal, então questionei sobre o que sentia e o mesmo respondeu que poderia ser fadiga que estava atrapalhando. Como continuei não rendendo nos estudos resolvi marcar consulta em uma clínica bem conceituada perto da onde eu morava.

O segundo médico também falou que eu tinha a visão normal mas me passou exames ortópticos para fazer, que segundo ele o cansaço poderia estar vindo pela fadiga do nervo óptico e este precisava ser fortalecido. Esse mesmo médico também passou uma receita para eu usar óculos para cansaço com grau de 0,25 em ambos os olhos, mas ao usá-los, só pioravam os sintomas. Durante os testes ortópticos fiquei curioso por não conseguir ver todos os objetos no teste de profundidade, mesmo com exercícios nada melhorava e posso dizer que todos os sintomas se agravavam.

Marquei com outro médico nessa mesma clínica, quem sabe uma terceira opinião não ajudaria?! Falei para esse médico tudo que já tinha feito. O mesmo resolveu me passar uma outra receita para uso de óculos de descanso com grau maior do anterior 0.75, contrariando os exames que deram normais. Achei um absurdo e falei que não iria usar pois o óculos anterior já havia me prejudicado e esse estaria no mesmo caminho. O oftalmologista ficou nervoso dizendo que tinha raiva de pacientes que não seguiam a prescrição médica e falou que eu que não cumpria com o que os médicos passavam. Me levantei e fui embora decepcionado.

A sensibilidade às luzes fluorescentes só aumentavam, dores nos olhos e sonolência durante a leitura, irritabilidade, frustração de não conseguir evoluir nos estudos, tudo isso me incomodava. Então, resolvi mudar de clínica e ir em uma das mais conceituadas de Goiânia.

Nesse quarto médico, os exames deram todos normais como se era de esperar e conversando sobre todos esses sintomas o mesmo me disse que também sofria dos mesmos problemas e que eu teria de ter paciência para conviver com tais sintomas e buscar superá-los. Fui embora chateado.

Algo me dizia que existia uma resposta, mas não sabia onde encontrar.

O auge do meu cansaço visual foi em 2012, ano em que resolvi tirar licença por interesse particular para estudar, pois não conseguia conciliar estudos/trabalho. Quando ia estudar ficava totalmente perdido e não absorvia nada, e queria muito passar em outro concurso com uma remuneração melhor. Ver meus colegas passarem em concursos melhores me deixava feliz, mas eu ficava frustrado por fazer esforço e não conseguir resultado.

Nesse período da licença particular, fiquei por conta para estudar, mas sentia os mesmos sintomas e cansaço durante os estudos. Achei estranho, pois a saúde corporal estava em dia e sem preocupações aparentes. Era para o meu cérebro estar rendendo ao máximo e isso não acontecia. Por não encontrar respostas em clínicas oftalmológicas, tive a idéia de jogar os sintomas que sentia no GOOGLE e quem sabe poderia achar algum artigo ou pessoas que passavam dificuldades parecidas. Daí encontrei a resposta: SÍNDROME DE IRLEN.

Um dos resultados que apareceram foi um artigo da Dr. Márcia Guimarães do Hospital de Olhos de Belo Horizonte sobre tal síndrome de Irlen do qual nunca tinha ouvido falar. Lia tal artigo com intenso cuidado e atenção, era Deus me dando respostas que procurei a vida inteira e todos os sintomas que eu senti estavam ali, confirmando que nunca fingi nada e que muitos desses exames oftalmológicos estavam incompletos.

No artigo falava que existiam os “Screeners” , pessoas treinadas pelo HOlhos para diagnosticar a síndrome de Irlen e posteriormente encaminhar ao hospital para a bateria de exames específicos. Logo na entrevista com a screener, ela me falou que os sintomas eram bastante evidentes mas que iríamos fazer todo roteiro. Meu cérebro foi exposto ao cansaço extremo através de uma lâmpada fluorescente e durante os testes percebi a perda clara de percepção espacial, dificuldade na leitura, letras ondulando, dor de cabeça extrema, irritabilidade. Mas foi necessário para ir para o próximo passo, Hospital de Olhos de Belo Horizonte fazer exames detalhados em buscas dos filtros espectrais (lentes que são colocadas nos óculos).

Engraçado, mesmo após confirmar que sou portador de S.I. (Síndrome de Irlen), fiquei relutante em ir ao HOlhos fazer os exames. Sei que tinha encontrado a resposta que procurava, mas por nascer com esse problema, o organismo parecia não querer aceitar. Esse período de “aceitação” levou quase 12 meses para ir ao HOlhos fazer os exames, mas acabei indo.

RafaelNesse período de “aceitação” do diagnóstico, consegui estudar através de vídeo aula, respeitando meu organismo. Com muito esforço, paciência, dedicação e principalmente à força de Deus, consegui passar no concurso da Policia Militar de Brasília. Fiz treinamento de resistência para suportar longa horas de prova e aprender a driblar muitos dos sintomas da Irlen que me atrapalhavam. Conhecer mais sobre a síndrome já me fazia ter uma vida melhor e ajudou a selecionar o que era bom ou não para meu organismo.

Em 2014, fui ao Holhos em Belo Horizonte fazer uma bateria de exames. Fiquei surpreso com a dedicação dos colaboradores do hospital, o jeito que observam os pacientes, a calma e paciência de que os portadores de S.I. necessitam. Digo, com toda sinceridade, me senti mais em casa que na minha própria casa. É confortante e muito agradável estar rodeado de pessoas que entendem seu organismo, o jeito de enxergar o mundo, de como  seu corpo recebe e reage aos estímulos. Isso não tem preço.

Quando experimentei os filtros pela primeira vez, muita coisa melhorou imediatamente: o conforto, definição e quantidade de cores, movimento das coisas, fotofobia e outros… achei que fosse milagre, mas eram os filtros espectrais agindo. Queria sair dali com eles, mas eram filtros de testes, pois os filtros específicos são feitos no Instituto Irlen-EUA e posteriormente enviados para o Brasil.

Estou em período de readaptação neurovisual e utilizando o terceiro filtro espectral  (a adaptação vai de pessoa pra pessoa). Tenho 33 anos de idade e esse fator pesa em alguns sintomas, mas graças aos óculos consigo tolerar bastante a fotofobia, ter mais atenção ao dirigir, concentração na leitura, dedicar ao violão e aulas de canto que tanto amo. Dependendo do meu esforço físico e mental ainda preciso de um descanso, mas ainda assim é muito, mas muito melhor mesmo do que sem os filtros. Posso dizer que não consigo viver sem esses milagrosos filtros/óculos e estes são um divisor de águas para quem tem a S.I.. É a qualidade de vida que procurava e que certamente irá melhorar cada vez mais.

Você que é portador ou possua sintomas parecidos faça os exames para ter real diagnóstico, pois a S.I. pode ser confundida com vários outros problemas como hiperatividade, déficit de atenção e outros. Somente profissional habilitado em neurovisão saberá distinguir entre tais distúrbios e assim conseguir melhorar a vida do paciente através do tratamento adequado. Acredite!! Existe uma luz no final do túnel e sempre tenha determinação para buscar respostas para suas perguntas.

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